Na Amazônia, o manejo sustentável do pirarucu transformou-se em modelo de gestão ambiental com base comunitária. Implantado com apoio técnico do Instituto Mamirauá desde o início dos anos 2000, o plano contribuiu para a recuperação da espécie — antes ameaçada pela pesca predatória — e para a geração de renda nas comunidades locais, aliando conhecimento tradicional, monitoramento científico e associativismo. Hoje, nas reservas Amanã e Mamirauá, a experiência demonstra que é possível proteger o meio ambiente com protagonismo das populações ribeirinhas e valorização de seus modos de vida.

Mas como uma política de conservação pode mobilizar uma comunidade? Essa foi a pergunta que guiou o antropólogo Rônisson Oliveira em sua pesquisa de doutorado, realizada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O estudo mergulha nas tensões sociais no contexto do plano de manejo do pirarucu na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, no Amazonas.

O estudo investiga os conflitos entre pescadores das comunidades do setor Coraci, na Reserva Amanã, que se dividem entre aqueles que aderiram ao plano de manejo do pirarucu e os que ficaram de fora do processo. Mais do que uma disputa sobre pesca, o trabalho revela como políticas públicas externas interferem em dinâmicas locais, afetando laços comunitários, práticas religiosas, relações com o território e até a maneira como se enxerga o próprio peixe.

Oliveira, que é pesquisador do Grupo de Pesquisa em Territorialidade e Governança Socioambiental na Amazônia, no Instituto Mamirauá, conhece a realidade de Coraci desde a infância. Nascido na comunidade São Paulo do Coraci, mudou-se para Tefé para finalizar os estudos de nível médio e fundamental, em seguida ingressou na Universidade do Estado do Amazonas, onde iniciou no campo da pesquisa como bolsista de iniciação científica.

Depois do mestrado iniciou trabalhos de pesquisa com bolsa no Instituto Mamirauá e, atualmente, integra a equipe científica do instituto — uma organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e referência nacional no apoio ao manejo sustentável de recursos naturais na Amazônia.

“Eu fiz uma pesquisa no Coraci, sobre conhecimentos tradicionais na pesca, com bolsa do CNPq no Instituto Mamiraua, entre 2015 e 2019. Então, esse retorno ao Coraci me fez perceber as questões de ´tensão` em torno do pirarucu, muito presentes no cotidiano” pontua Rônisson Oliveira. “Havia uma divisão clara de categorizações a partir da pesca desse peixe, de um lado os manejadores, de outros os `invasores´. Mas os `invasores não vinham de longe, eles eram do próprio Coraci. Esse foi o ponto de partida, para pensar nos primeiros questionamentos da investigação que gerou a tese de doutorado”.

O peixe que pensa

Ao longo de suas idas e vindas ao Coraci — dez visitas de até 30 dias cada — Rônisson descobriu algo mais profundo que o mero embate por recursos naturais. Descobriu que o pirarucu não é só um peixe. Ele é tratado como sujeito. É inteligente, reage à perseguição, modifica seu comportamento conforme as ações humanas. E é nesse ponto que a pesquisa de Oliveira assume uma proposta de entendimento a partir do estudo multiespécie, reconhecendo os peixes como agentes, como seres com vontade, quase pessoas aquáticas.

“O trabalho de campo foi me mostrando como o pirarucu, na visão dos pescadores, era um ser que estava para além da condição de produto ou de uma espécie em disputa. Suas ações eram narradas a todo momento, com destaque para o fato de ter “uma inteligência”, como expressam os pescadores”, explica o pesquisador Rônisson Oliveira. “Tal inteligência faz com que o pirarucu também saiba sobre os pescadores e a partir disso agir, buscando rotas de fuga ou mesmo mostrando a sua fúria, “boiando brabo” quando percebem que os pescadores estão no lago a sua procura”.

Esse reconhecimento não é meramente simbólico. Os pescadores sabem, por exemplo, que quando o pirarucu está arisco é sinal de que algo está errado.

O grafismo da sustentabilidade

Em meio às águas, fibras e disputas, surge um dos conceitos mais poéticos e potentes da tese: o “grafismo da sustentabilidade”. Inspirado no artesanato das mulheres do grupo Teçume D’Amazônia, sediado na Reserva Amanã, o termo simboliza o entrelaçar de instituições, pessoas, religiões e saberes em torno do ideal de conservação

Esse grafismo, como o trançado das talas, é feito de linhas tensionadas: há o fio da Igreja Católica, o fio do Estado, o fio da ciência — com destaque para o próprio Instituto Mamirauá, um dos principais atores no suporte técnico e organizacional ao manejo do pirarucu na região – o fio da tradição e, mais recentemente, o fio da resistência. Cada qual puxa para um lado. Juntos, formam o desenho do Coraci contemporâneo.

“O manejo de pirarucu é uma forma consolidada de conservação de uma espécie. Ele chega no Coraci no início dos anos 2000, junto com diversos outros projetos voltados para a sustentabilidade ambiental, que vieram com a criação da reserva Amanã”, ressalta o pesquisador. “Então, o manejo da espécie é uma das partes do grafismo da sustentabilidade ambiental, no Coraci, que vem sendo tecido desde 1970, pela Igreja Católica, com o ideal de ecologia. É uma linha ou tala, que mostra claramente o ideal de sustentabilidade tecido historicamente, por diversas instituições e pessoas, para aquela região”.

Invasores ou excluídos?

A pesquisa observa as dinâmicas entre manejadores legalmente autorizados e pescadores considerados “invasores”.

Até o final dos anos 1990, os verdadeiros “invasores” vinham de longe, em grandes embarcações, vindos da capital Manaus ou do estado vizinho, Pará. A criação da Reserva Amanã e o início do plano de manejo — com cotas, delimitações e regras rígidas — conseguiram, em certa medida, coibir a ação desses e de outros agentes da pesca predatória. Mas um novo tipo de invasão emergiu: a interna.

Parte dos moradores do Coraci ficou fora do sistema de manejo. Alguns por não querer lidar com a burocracia, outros por convicções religiosas que não reconhecem a necessidade de preservar aquilo que Deus criou como eterno. A pesquisa mostra que, embora vistos como infratores por alguns, esses pescadores ainda se sentem pertencentes ao território e, muitas vezes, mantêm práticas sustentáveis — mesmo que à margem da legalidade.

“Chegar aos “invasores” foi um processo mais difícil, devido a delicadeza que envolve essa categorização localmente. Demorei um pouco ir até as comunidades, consideradas de “invasores”, mas quando fui, busquei falar dos objetivos da pesquisa no sentido de entender as razões de se estar fora, do plano de manejo de pirarucu, e jamais chamei qualquer indivíduo de “invasor”, me referia sempre como pescador. Alguns chegaram a falar, nas entrevistas, sobre a categorização, afirmando saber que assim são chamados em determinadas circunstâncias, porém reagem com a negativa, acreditam terem direito de uso, por historicamente ocuparem aquele território, pelo peixe ser considerado da natureza, por manejadores não criarem os pirarucus da região, etc.”

Entre parentes e conflitos

As reuniões da associação de manejo podem ser palco de discussões acaloradas. Acusações diretas, saídas voluntárias, expulsões. Mas no Coraci, o laço de sangue e vizinhança muitas vezes fala mais alto que as divergências. O conflito, embora real e constante, raramente explode — ele é absorvido pelas conexões familiares e pelas relações comunitárias.

Rônisson Oliveira destaca que “o conflito entre manejadores e invasores é o mais claro, quando se olha o manejo de pirarucu na região. Tal conflito é pauta constante quando os manejadores pensam a gestão do manejo, com monitoramento e vigilância. No entanto, ao participar das reuniões dos manejadores, percebi que na gestão do manejo há outros conflitos, até mesmo entre os próprios manejadores, em especial em relação ao nível de comprometimento e parcerias, nem todos estão no mesmo `nível´”.

“Assim, o conflito por pirarucu atravessa o cotidiano no Coraci, causa ´intrigas´, mas além de um plano técnico e burocrático para a gestão do território, há uma forte aliança de vizinhança e parentesco, que de certa forma “segura” a escalada desse conflito”, complementa o pesquisador.

Essa teia também vem sendo costurada com o apoio do Instituto Mamirauá, que atua há mais de duas décadas na região como parceiro técnico e social das comunidades. A instituição oferece assessoria direta aos manejadores de pirarucu — desde o monitoramento de estoques até a organização das cotas, passando pela formação de lideranças e o apoio à gestão das associações locais. Além disso, tem papel importante no fortalecimento comunitário ao promover ações de educação ambiental, inclusão de jovens e valorização dos saberes tradicionais, o que contribui para a coesão social mesmo diante de tensões internas.

Quando o pirarucu se esconde

Um episódio marcante registrado na tese aconteceu em janeiro de 2025. Era a segunda etapa da pesca de manejo do ano anterior. Ao chegarem ao lago, os manejadores notaram que os peixes estavam arredios. Carcaças, vestígios de fogueira, sinais claros de pesca ilegal.

Mesmo assim, a cota foi retirada — apenas com mais esforço e dias a mais de trabalho. O que esse episódio revela, para Oliveira, é que os conflitos, ainda que causem atrito, também provocam uma intensificação da vigilância, da organização e da resistência coletiva.

Regressar para entender e escrever

A tese de Rônisson Oliveira não é apenas uma investigação acadêmica: é uma volta ao próprio começo. A história do Coraci é também sua história, a história da luta do pai pela criação da reserva, da mãe que educou os filhos em meio à floresta, do menino que viveu intensamente a infância nesse lugar. É também um convite para pensar a Amazônia com a Amazônia, e não apenas sobre ela.

“A pesquisa me fez voltar ao Coraci de diversas maneiras, inclusive para entender o passado, seja perguntando do meu pai, minha mãe, meus tios e outros parentes, seja buscando algo já escrito sobre a região. Isso de certa forma me ajudou a entender a minha história também, de como a história do Coraci é uma história de luta, seja a luta diária para viver nesse lugar amazônico, seja na luta por “organização”, que é a luta coletiva para o bem comum, muito presente na história da minha família em especial, com envolvimento do meu pai e dos meus tios, nas formações da Igreja e da reserva Amanã, em que aprenderam e assumiram o papel de lideranças a frente de todas as demandas socioambientais que chegaram ao Coraci. E foi toda essa luta, que envolve a história pessoal do meu pai e suas escolhas profissionais, que me possibilitaram estudar e fazer esse movimento de retorno, também como pesquisador”, concluir o pesquisador.

Sobre o Instituto Mamirauá

O Instituto Mamirauá é uma unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) que atua no desenvolvimento de pesquisas e ações voltadas à conservação da biodiversidade e à melhoria da qualidade de vida das populações amazônicas. 

Texto: João Cunha

Fotos: Rônisson Oliveira